Júlia.

Essa é a Júlia.

Eu conheço a Júlia faz pelo menos dois anos. Mas a gente conhece tanta gente o tempo todo que às vezes não acaba conhecendo ninguém. E a Júlia foi só mais alguém que eu demorei pra reconhecer, além de conhecer.

Outro dia eu fui na casa da Júlia.
Era pra eu ter chegado dez da manhã, mas eu demorei até as três da tarde. Quando eu entrei, a Júlia demorou em um sorriso enquanto me mostrava como o sol tinha queimado a pele dela. Que pele? Eu só via o próprio sol. Sol loiro. Meu sol.

Naquele dia demoramos bebendo cervejas. Várias delas. Várias músicas. E quando eu fui embora a Júlia demorou alguns segundos a mais no meu abraço.

Eu demorei parar de falar da Júlia aquele dia, e talvez eu ainda nem tenha parado. Mas a Júlia demorou falar comigo outra vez. Demorou responder minhas mensagens.

Demorou me ver de novo.

Quando me viu, Júlia demorou me beijar. E quando me beijou demorou mais ainda pra parar. Enquanto isso a gente demorava respirar qualquer outra coisa que não fosse o cheiro uma da outra.

Outro dia Júlia veio até minha casa.
Meu cachorro demorou no colo dela, enquanto ela demorava no meu olhar.

Desde então eu tenho esquecido compromissos, datas importantes e dormindo durantes os filmes. Tenho certeza que a Júlia ainda vai demorar a se acostumar.
Mas pra quem nunca teve pressa,
eu só espero que Júlia ainda queira se demorar em mim.

E ser o meu lar.

Manifesto aos que ficam.

Passei as últimas 24 horas pensando em como falar sobre coisas que não cabem em palavras.
Sobre dores que não podem ser descritas. Feridas que não curam.
Saudades que não passam e faltas que duram.

Foram dois dias sem dormir e ainda vão ser muitas horas sem entender.
Procurando respostas e lidando com as mágoas.

O último dia foi cinza.
E isso não é um clichê de quem brinca com as palavras.
Nossa cidade chorou tempestade o tempo todo, lavou nossos caminhos,
molhou nosso corpo, abraçou nossa agonia e nossa angustia padecendo com empatia da nossa mágoa sem fim.

E hoje, como quem manda um recado,
o céu azul trouxe um sol bonito que aquece cada centímetro da nossa pele lembrando o que é estar vivo.

Meu cachorro espreguiçou e caiu da cama.
Meu amigo me mandou um áudio cantando uma música que a gente fez em um dia feliz.
Minha irmã tinha acordado às quatro da manhã pra reclamar dos pernilongos.

O mundo tava acontecendo.

Entrei no banho e lembrei-me de uma coisa em meu corpo.
Uma tatuagem que diz que a vida segue.

Chorei de novo.

Eu continuei sem respostas.
Mas na manhã de hoje eu continuei.

Continuei porque a gente tem que aprender a ficar em paz com a falta de explicação.
A gente tem que aprender a ficar em paz com as perguntas sem respostas.

Nem tudo tem motivo, fundamento, causa ou razão.
Ou às vezes até tem, mas nós estamos em um mundo perdido,
com vários problemas e tentando sobreviver nele ainda que baseados em elucidação.

E nós é que carregamos a obrigação de ser a diferença nesse mundo
tão vasto e bonito que amanhece de novo sem esperar a gente se recuperar.

E aí passou.

Passou porque o luto dura, mas ensina a lutar.

O luto ensina que em cada momento a gente redescobre a certeza
de que se emocionar é privilégio dos fortes e dos sábios que tem o que oferecer aos outros.

O luto ensina que amar o amor não violenta
nenhuma integridade física, psicológica, emocional ou espiritual.

O luto ensina que deixar o orgulho de lado
não cerceia a tua autonomia e não atropela quereres,
não te torna dependente e nem insuficiente.

O luto ensina que declarações de afeto
não invadem espaços, não oprimem, não sufocam.

O luto ensina que brigar não melhora nada
e que rancor não leva a lugar algum.

O luto ensina a ser humilde,
te lembra de como é abraçar quem você já não via
e nem sabia por que não via.

O luto te ensina que é melhor ter paz do que ter razão.

E o luto te ensina que isso aqui não é sobre suas expectativas
ou sobre como as pessoas vão reagir ao seu coração.

Mas sim sobre o quanto você tem se esforçado
pra dar valor nas menores coisas da vida.

Essas são as mais importantes, essas que vão ficar.
Você pode fazer a diferença na vida de uma pessoa,
do café da padaria à cerveja gelada ao fim do dia.

O mundo por si só já é muito sozinho.
Nascemos e morremos
como parte única e singular de um processo.
Desligados. Estranhos.

Ninguém chega ou vai com a gente
e por isso precisamos de ajuda e precisamos ajudar.

Precisamos de apoio.
Precisamos escolher o amor.
Porque essa é a forma mais simples de escolher a vida
e por um momento nos sentirmos um pouco menos sozinhos.

E você pode chorar sim.
Pode chorar muito. Pode chorar por muito tempo.

Doer faz parte do processo de cura.

Só não se esquece de olhar além das lágrimas
e assumir que a melhor forma de lidar com a morte
é lembrando-se de viver a vida.

 

Em memória do meu amigo Caboclo.
E em agradecimento aos nossos amigos.